Uma história que perdeu o controle

– Lico, você não está cuidando da sua irmãzinha? Disse sua mãe ao entrar na sala. – Claro que sim mãe, disse sem desviar o olhar da TV.

– Ei? Lico? Não tá me ouvindo? Lico?

De repente a imagem da TV apaga. Sua mãe surge em primeiro plano, mãos na cintura e apontando com o rosto.

– Olha lá sua irmã com o controle remoto na boca!

– O que? Responde ele um pouco atordoado com a pergunta. – Controle remoto na boca? Pergunta pra si mesmo. – Controle remoto na boca?

Agora aquele enxuto conjunto de palavras perambula a esmo pela cabeça de Lico. Fazendo ziguezague entre pontos de interrogação. Controle remoto na boca? Controle remoto da boca? Busca outras combinações. Controle na boca, remoto? A lógica não entende. Remoto controle na boca? Na busca de sentido para a estranha frase seu cérebro roda em falso. Boca de controle remoto. As palavras cirandam ao redor de seu pensamento. Controle na boca remota. Imóvel, os olhos arregalados estão fixos nos vultos de D. Julieta. Vê ela abrir e fechar a boca lentamente, em câmera lenta. O som distorcido embala a dança dos braços. Não consegue decifrar o que ela diz. Apenas observa, entorpecido pela busca incessante de nexo. Boca de remoto controle. Novas combinações. Controle na boca remota. A boca remota do controle. Nada se encaixa. Controle a boca, remoto. Uma gaiola de palavras. A boca do controle remoto. As palavras se distorcem. Sem controle a boca remota. Embaralham. As bocas desmontam o controle. Zonzeira. A boca perde o mais remoto controle. Descontrole da boca bate de moto. Escuridão. A boca desliga o controle.

Depois de algum tempo, não se sabe quanto, os olhos se abrem. Sua poltrona está agora sobre uma vitória régia gigante. A planta verde de formato circular girava lentamente em pleno alto mar. Uma imensidão de água alaranjada, calma, quase imóvel. Ao longe podia se ver o encontro com um céu arroxeado opaco. A luz emana da agua, como se o sol estivesse dentro do oceano. Lico parecia um pouco apático. O ambiente surreal não o incomodava. Até perceber o controle remoto caído sua frente. Parecia lhe familiar. Controle remoto no mar? Questionou a si mesmo. Controle remoto no mar? Repetiu. Um turbilhão de lembranças se aproxima. Controle remoto no mar. As palavras balançam suas emoções. Remoto controle no mar. Em desespero aperta o controle buscando Pause. Stop. Aperta Play. Uma criatura colossal salta da água em sua direção. A boca arreganhada enfileirava dentes negros maiores do que uma porta. Num movimento brusco, Lico se joga para trás. Sua cadeira vai ao chão. Os outros alunos caem na gargalhada.

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